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Blog do Paulo Sampaio

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Por que homens gays lotam festas de sexo? Só em SP, foram 7 em uma semana

Paulo Sampaio

30/06/2019 04h00

Vestindo uma luminosa hot pant, meia arrastão, cinta-liga e bota com spikes, um frequentador da festa Kevin é arrastado por uma corrente (Foto: Arquivo Pessoal)

Os encarregados da produção de uma "festa de sexo" costumam reservar um espaço relativamente grande para a chapelaria. Alguns frequentadores livram-se das roupas logo de saída. Outros, aos poucos. Um terceiro grupo troca as que está usando quando chega, por outras que trouxe de casa. Pega na mochila, digamos, uma bota de cowboy e uma calcinha fio dental. Ou uma máscara de cachorro — que no universo sadomasoquista indica submissão e obediência —  e um  "bondage harness", espécie de top composto por cintos de couro interligados por argolas de metal. Ou ainda uma sandália pata de vaca com salto de 20 cm e um macacão preto de borracha.

A fantasia sexual que envolve o ato de se despir ou se vestir não fica, nesse caso, apenas no exercício lúdico. Em poucas horas, no salão mal iluminado, imperscrutável, onde as caixas de som emitem sucessos de Anitta, Beyoncé ou house music, o visitante tromba com gente se masturbando, fazendo sexo oral, anal, de quatro, acocorada, ou levando o cachorrinho para passear. O "darkroom" é ocupado pelos mais reservados. Eles fazem a mesma coisa, só que no escuro.

"50% das pessoas estão ali pela música, 50% pela putaria", calcula Thiago Roberto de Souza, 28 anos, um dos criadores da festa "Dando", de público majoritariamente masculino. "Você coloca dois homens sem roupa, um em frente ao outro, em uma festa, é natural que haja sexo. É da cultura gay."

Marcelo D'Ávila e Thiago Roberto de Souza, criadores da festa Dando (Foto: Ariel Martini)

Muito prestígio

Cerca de mil pessoas prestigiaram a edição mais recente da Dando, na quinta 22 de junho, durante a semana do Orgulho LGBTQI+.  Na mesma ocasião, outras seis festas de sexo realizadas em São Paulo atraíram multidões. A Brutus recebeu 600 homens; a Kevin, a Z(o)NA, a After Kevin e a F4F, outros 2.500; as duas edições da CaBBaré dos Leiteiros, especialmente dedicada aos entusiastas do sexo sem camisinha, por volta de 400. O blog esteve em quatro das sete festas.

Quase 100% dos frequentadores delas são HSH (homens que fazem sexo com homens). A expressão diz respeito não só a homossexuais, mas também a bissexuais que não se consideram "gays" — é usada por epidemiologistas envolvidos em estudos sobre o vírus HIV, que causa a Aids, e outras doenças sexualmente transmissíveis.

Mas afinal, por que os HSH lotam festas de sexo? (Não existe notícia de nada com essas dimensões para héteros ou lésbicas).

Veja também:

Antes da resposta, um didatismo:

a) os criadores da "Dando" afirmam que batizaram a festa com o gerúndio do verbo "dar" para reverenciar à "filosofia franciscana": "É dando que se recebe", cita Thiago Roberto de Souza;

b) já o nome Brutus remete à masculinidade, virilidade, macheza, palavras que soam afrodisíacas para uma parcela significativa de HSH;

Na Brutus, dupla exibe o peitoral adornado pelo "bondage harness" (Foto: Divulgação)

c) "Kevin" foi tirado das tirinhas "Kevin & Friends", que retratam "as aventuras do menino inconvenientemente feliz";  

d) a letra "o", entre parêntesis, no meio da palavra Z(o)NA, é uma alusão ao ânus;

e) After Kevin é uma espécie de "kevinha", realizada no dia seguinte ao da outra;

f) F4F é o braço paulistano de uma festa promovida em Berlim por um brasileiro.  O primeiro "F" é de "ficken", que em alemão significa foder; "4F" é a versão numérico-representativa da expressão em inglês "for fun";

g) os dois "b" maiúsculos de CaBBaret dos Leiteiros são uma referência à expressão "bareback", que em inglês significa montar cavalo sem sela, ou, na gíria dos iniciados, transar sem camisinha.

Tédio sexual

Conversando com especialistas — médicos, produtores das festas e frequentadores — chega-se basicamente a três explicações sobre o sucesso desses eventos entre HSH. Eles falam do impacto que a Internet promoveu no comportamento sexual dos usuários; mencionam o "simples prazer" de transar (e também de correr riscos); e se referem ao corpo como um "aliado na luta política".

De acordo com o psiquiatra Aderbal Vieira Jr, responsável pelo ambulatório de tratamento de dependências comportamentais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a facilidade de acesso a conteúdos pornográficos na Internet ocasionou uma expressiva mudança no comportamento sexual dos usuários. "A superexposição de imagens e vídeos eróticos em sites, aplicativos e nas redes sociais levou a uma espécie de tédio em relação ao que antes despertava desejo. Isso faz com que se busquem vivências cada vez mais diversificadas — inclusive na vida real."

Em seus estudos no ambulatório, Aderbal observou que os HSH são os maiores consumidores de conteúdo pornográfico na rede: 50% , ante 10% de heterossexuais. O médico diz que, assim como acontece com as substâncias químicas, o sistema neurológico cria tolerância em relação a "doses" de prazer sexual que não sejam iguais ou superiores ao que já foi vivido intensamente: "Com o tempo, uma imagem de nudez ou um vídeo erótico já não são mais tão atraentes", diz.

A máscara antigás no universo sadomasoquismo indica que o usuário é adepto do "toy hard" (brincado pesado) (Foto: Arquivo Pessoal)

Atração pelo risco

Abordado pelo blog na Dando, um ator de 30 anos afirma que já foi mais fácil alcançar a satisfação sexual. "Quando eu tinha 20 anos, a imagem de um homem pelado me dava muito tesão. Hoje, eu preciso ser subjugado, dominado, penetrado com força." Ali perto, um publicitário de 33 anos explica que descobriu um prazer inaudito no exibicionismo: "Gosto de ser observado enquanto trepo. Tenho a sensação de que sou desejado por mais gente, além da pessoa com quem estou."

Na Kevin, um gerente de vendas de 28 anos diz que a sensação de "perigo" o atrai: "De repente, eu me vejo abaixado no meio de cinco homens, fazendo sexo oral em todos. Não posso negar que o frisson do risco faz parte do prazer."

O "frisson" tende a ser maior na Cabbaré do Leiteiro, que é dedicada aos adeptos do sexo sem preservativo. "O fetiche do risco seduz as pessoas", acredita Leo Dutra, 42 anos, criador da festa. Ali, não há pista de dança, os ambientes são escuros,  equipados com camas grandes ou individuais, e possuem acessórios como o sling (espécie de balanço de couro côncavo suspenso por correntes, para facilitar a penetração de quem está deitado com as pernas para o alto, na posição 'frango assado'). Pede-se para ir sem roupa, ou, no máximo, de sunga. "Ninguém vai discriminar o cara que usa camisinha, mas eu já aviso que ele está em ambiente errado", explica Dutra. Entre os outros motivos que atraem o frequentador da festa, segundo ele, estão "estilo de vida" e "maior sensibilidade na penetração (sem camisinha)".

Sexo e prevenção

De acordo com uma pesquisa divulgada no ano passado pelo Ministério da Saúde, um entre quatro homens que fazem sexo com homens em São Paulo tem o vírus HIV. A pesquisa foi feita em 12 cidades brasileiras e, no grupo entrevistado, 83,1% se declaram gays, 12,9% heterossexuais ou bissexuais e 4% outros. Do total, 75% faziam sexo apenas com homens. 

Todas as festas citadas nesta reportagem são visitadas por voluntários que explicam métodos de prevenção contra o HIV e as doenças sexualmente transmissíveis. Na Dando, há um espaço batizado de "bibal" (reunião de "bibas"), localizado ao lado da chapelaria, onde uma pessoa com um microfone dá informações sobre a PrEP (profilaxia pré-exposição ao vírus da Aids) e a PEP (profilaxia pós exposição, também conhecida como 'pílula do dia seguinte do HIV'). Explica, inclusive, que ambos só tem eficácia contra o HIV — não contra a sífilis, a gonorréia e o HPV.

Vista panorâmica da Kevin (Foto: Arquivo Pessoal)

Ativista anti-HIV

A única festa que não distribui camisinhas é a Cabbaré do Leiteiro. Mas Dutra, que é soropositivo, tornou-se um ativista no combate ao vírus HIV. Ele participa de um grupo montado pelo Centro de Referência e Treinamento em Doenças Sexualmente Transmissíveis (CRT-Aids), da secretaria da Saúde de São Paulo, para tornar a prevenção mais próxima do indivíduo que está na ponta do comportamento de risco. "Sou um anfitrião muito atencioso, explico as formas de prevenção, dou dicas de saúde e faço aconselhamento", diz.

Além de produtores de festas, o grupo reúne ONGs envolvidas na prevenção contra o HIV; coletivos LGBTI; donos de estabelecimentos frequentados pela população vulnerável — saunas e cruising bars — e administradores de aplicativos de relacionamento. "Percebemos com a experiência que chegar próximo a essa população é o grande pulo do gato", diz a diretora de prevenção do CRT, Ivone de Paula.

Como representante desse segmento, Leo Dutra esteve no começo do mês em dois congressos promovidos pelo HPTN (The HIV Prevention Trials Network), em Washington, nos Estados Unidos, nos quais se divulgaram pesquisas sobre novos tratamentos e métodos de prevenção. "Falaram também em um medicamento que estão desenvolvendo para a cura da doença", conta ele.

Sem patrulha

As festas são periódicas, a maioria mensal. Pelo menos duas se revelaram tão atrativas que se reproduziram — como era de se esperar em eventos dedicados ao sexo. A Dando é uma espécie de subproduto eletrônico da Pop Porn, realizada desde 2010 em um "cinemão" do centro de São Paulo. A Kevin, por sua vez, deu cria: nasceu a Z(o)NA, cujo dress code libertário é mais rigoroso. "A hostess cuida na porta para que ninguém entre vestido. No máximo de cueca ou, claro, 'montado"', diz o jornalista Rafa Maia, 32, criador das duas festas.

Segundo ele, o objetivo principal de ambas é ajudar as pessoas a se despir de preconceitos. Eventualmente, o processo só se dá com o auxílio de aditivos. Mas Rafa diz que o álcool e as substâncias químicas são apenas o "pano de fundo" de uma celebração muito maior — a da liberdade em relação ao próprio corpo.  "Em um ambiente assim,  uma pessoa que sofreu bullying por ser gordo, baixo, feio, ou afeminado não vai se sentir julgada", acredita.

Rafa, o próprio, revela que foram necessárias muitas edições da Kevin até que ele sentisse à vontade para ficar nu. Hoje, diz, precisa se lembrar de colocar a roupa quando vai embora.

Dançando o textão

Alexandre Bispo, da Brutus, é da mesma filosofia. Sua ideia é promover um evento democrático. "Nosso mote é a diversidade. Queremos que qualquer pessoa, com o corpo que tem, se sinta bem na festa."

Por sua vez, Thiago Roberto, da Dando, fala da nudez "enquanto atitude política". Declarando-se "radicalmente de esquerda", ele acredita que "o corpo é um aliado na nossa luta". TR diz que não pode afirmar que os mil frequentadores da festa façam tal elaboração antes de tirarem a roupa e se entregarem ao sexo livre. Mas garante que todos ali estão fazendo política, ainda que sem saber. "Se não quer ouvir o textão, vai dançar o textão."

Atualizando: foram oito festas. Na sexta, 28, teve Z(o)NA.

Na sexta que vem, 5 de julho, a Dando promove uma edição um pouco menor, casada com um desfile da 45a. edição da Casa de Criadores — evento que há 20 anos lança ou projeta nomes da moda. Entre outros, Mário Queiroz, André Lima, Rita Wainer, Walério Araújo e João Pimenta.

 

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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