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Blog do Paulo Sampaio

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Histórico

Aos 72 anos, judia cria drag queen russa e homenageia antepassados

Paulo Sampaio

11/08/2019 04h00

 

Bertha Nutels e Álla Gurevith (Fotos: Ricardo Borges/UOL)

Pouco depois de iniciada a entrevista, Bertha Nutels declara que é judia, filha única e que viveu um romance de 34 anos com um "sambista, crioulo, fodido". Nenhuma das expressões é dita em tom agressivo, racista ou discriminatório, muito ao contrário, saem em um impulso afetuoso, no melhor carioquês de raiz. O sambista em questão era Délcio Carvalho, que compôs em parceria com a cantora dona Ivone Lara sucessos eternos como "Acreditar" (consagrado na voz de Beth Carvalho) e "Sonho Meu" (de Maria Bethânia e Gal Costa); em dupla com Noca da Portela, "Vendaval da Vida" (de Alcione).

Recentemente, Bertha perdeu 45 kg depois de uma cirurgia bariátrica, teve aulas de canto e maravilhou-se com a criação de uma drag queen russa. Ao despejar seu currículo assim, meio de supetão, ela parece estar dando um aviso. Algo como: "Não mexe comigo". Mas rapidamente mostra que não morde. Só precisa de um pouco de atenção. E não é difícil dar. Aos 72 anos, ela tira de seu bauzinho de estimação histórias preciosas da vida toda.

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Figurino rico

A drag foi batizada de Álla. Álla Gurevith, em homenagem aos antepassados. Seu pai e sua mãe nasceram na Rússia, fugiram para o Brasil durante a Primeira Guerra Mundial e se instalaram no Rio: Elisa Tratchenberg Nutels veio de Odessa e se naturalizou aqui; Noel G. Nutels, nascido em Ananiev, foi registrado ao chegar.

Álla seria a representação artística da personalidade de Bertha. Uma espécie de alter-ego superproduzido. "Compro mais roupas para ela do que para mim", afirma a entrevistada, no amplo apartamento em que mora há 60 anos, em Laranjeiras, na zona sul do Rio.

Túnica dourada

Para conseguir as volumosas perucas e os vestidos sob medida da exuberante Álla, Bertha costuma percorrer 25 km em sua picape Ranger, até Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde tem uma costureira só para atender a drag. Com expressão de criança, ela mostra uma túnica dourada, que termina abaixo dos joelhos em forma de cone. O modelo está uma das araras apinhadas de roupas que ela mantém no primeiro de três quartos.

Betha diz que nunca deixou a casa dos pais e, aparentemente, a casa dos pais nunca a deixou. Com cerca de 200 metros quadrados, o lugar é um verdadeiro relicário de microimagens, retratos, tapeçarias e quadros espalhados de alto a baixo; em um canto da sala de jantar, a estatueta de uma gueixa parece esquecida dentro de uma urna envidraçada. No mesmo ambiente, pequenos presépios "ecumênicos" convivem lado a lado com uma coleção de minipênis esculpidos em barro e cristal. Na mesa antiga e nas cadeiras, há pastas e livros empilhados. "Isso tudo foi ficando, eu nem mexo", diz.

Bertha e uma pequena parte de seu relicário, composto por presépios "ecumênicos", coleção de minipênis esculpidos, tapeçarias, quadros e pastas (Fotos: Ricardo Borges/UOL)

Sanitarista boêmio

Doutor Nutels era um prestigiado médico sanitarista, que ajudou a implantar o Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas. "Ele levava médico onde não existia", explica. Elisa era publicitária e fez um curso de entomologia, ciência que estuda insetos, para acompanhar o marido. Ambos eram boêmios e, quando estavam no Rio, segundo Bertha, "o 'open house' começava já na sexta-feira".

Ela formou-se em jornalismo na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), trabalhou com publicidade, tornou-se radialista e em determinado ponto começou a fazer pesquisa para a Enciclopédia da Música Popular Brasileira. Foi quando conheceu Délcio, na escola de samba Quilombo, criada pelo compositor Candeia, em Coelho Neto, zona norte do Rio. "Para elaborar minha pesquisa na área das alas de compositores de escolas de samba, eu consultava arquivos. No caso do Délcio, eu encontrei pouco material, então fui até ele", conta.

Calça de madras

Quando chegou à Quilombo, lembra, "o homem tinha tomado todas, estava com a cara cheia". "Eu pensei: 'Não vou entrevistar o cara desse jeito'. E voltei no dia seguinte". Segundo Bertha, Délcio era "o último homem no mundo por quem eu me apaixonaria. "Ele usava blusa estampada, calça de madras e meias coloridas."

Pouco tempo depois, porém, ele estava dormindo no quarto dela, no apartamento de Laranjeiras. "Em um caso raríssimo de mãe judia, a minha não se opôs ao romance. Na verdade, ela era inteligente, viu que não tinha escolha, que eu ia ficar com ele de qualquer jeito. Estava apaixonada."

Com Délcio, nos anos 1990 (Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução)

Pneus arriados

Foram mais de três décadas de convivência com Délcio, que nunca desfez o casamento com a mulher. Dona Sylvia era muito mais velha e sabia do caso do marido, mas tudo bem. Bertha também nunca pretendeu se casar com ele. "Eu queria a minha liberdade. Nunca quis homem morando comigo, nem filho", diz. Não significa que a ligação entre os dois fosse de "ficantes", dispersa. Eles conviviam intensamente. Quando Délcio morreu,em 2013, de câncer no estômago, "ele foi embora fisicamente, mas jamais no sentimento" . "Fiquei com um buracão na minha vida. Até hoje, estou com os quatro pneus arriados. Nós éramos parceiros afetiva e profissionalmente. Tínhamos uma editora juntos, a Bedel."

Em 2014, ao encontrar uma vizinha que havia emagrecido dezenas de quilos, Bertha perguntou o que tinha acontecido. Uma semana depois, ela estava na mesa de operação para se submeter à cirurgia bariátrica. "Eu tinha me abandonado para cuidar dele. Agora, era a minha vez."

Nasce uma estrela (Foto: Ricardo Borges/UOL)

Samba drag

Em 2016, começou a fazer aula de canto, basicamente para divulgar a obra de Délcio. "Os sambas são conhecidíssimos, mas o autor, não."

Em 2018, zapeando os canais na TV a cabo, meio que de bobeira, Bertha parou no programa "Drag me as a Queen", no qual um grupo de candidatas mulheres se submetem aos cuidados de três drag queens para se transformar em uma delas. "O programa é uma bobagem, mas eu fiquei fascinada com aquelas criaturas (as drag queens). Passei a acompanhar", lembra.

Linha de montagem

Um dia, no saguão do teatro onde uma amiga apresentava uma peça, Bertha conheceu o ator Wesley May, que se apresenta também como Bárvara Pah! (onomatopeia que reproduz o som de um tapa na cara da sociedade). Em pouco tempo, Bárvara havia se transformado na professora drag de Bertha. "A ideia não é mostrar como se montar uma drag padrão. É construir uma figura a partir da personalidade da pessoa", diz Wesley, enquanto finaliza a maquiagem de Bertha.

Ele costuma oferecer workshops para aspirantes na zona sul do Rio, mas agora está fechando uma turma em Madureira. "Tem uma porção de gente que adoraria se montar, mas não tem acesso onde mora, por causa do preconceito. Quanto mais pobre é o bairro, maior é a ignorância."

Vai tomar caju

A estreia de Álla se deu em um estande da feira erótica Sexy Fair, em 2018, quando cantou "Tomá Cajú", de Délcio. O refrão: "A ruiva fica louca se vê cajueiro/recebe o bicho carpinteiro/remexe mais que colher no angu/a ruivinha é viciada em tomar caju/tomar caju/tomar caju/a ruivinha é viciada em tomar caju".

Na letra original, a "ruiva" é "nega". "Mas, para não criar problema com os patrulheiros politicamente corretos, fiz a adaptação."

Pronta pra cantar (Foto: Ricardo Borges/UOL)

Viado e burro

Bertha explica que Álla é também uma manifestação político-libertária "contra o autoritarismo que a gente está vivendo". Ela se recusa a chamar Jair Bolsonaro de presidente. "A poeira do meu pai, que era progressista, deve estar fazendo redemoinho no túmulo."

Com base em reportagens feitas anteriormente, eu digo a ela que há gays  — inclusive drag queens — que se orgulham de ter votado em Bolsonaro. Em uma tirada de humor bem ao estilo drag, Álla arremata: "Mas aí é acúmulo de função: além de viado, burro."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.