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Miss Plus Size 2019: "Quem fazia bullying, hoje me procura nas redes"

Paulo Sampaio

02/12/2019 04h00

Eduardo Araúju, idealizador do Miss Plus Size Nacional 2019, posa com a vencedora, Ludmila Holanda (Marcia Salles/Divulgação)

Aqueles garotos que praticavam bullying com a "baleia" da turma, o "saco de areia", a "elefanta" continuam se acovardando. Agora, falta coragem para manifestar publicamente a atração que sentem pela ex-colega de escola. Eleita miss plus size nacional 2019, Ludmila Holanda, 26 anos, 1,70m, 101kg conta que vários deles costumam cortejá-la reservadamente, nas redes sociais: "Acontece demais. Alguns fazem elogios abertamente, outros ficam rodeando para ver como eu reajo. Sinto que, se eu der chance, eles vão em frente", diz ela, que é modelo.

Tarde demais. O coração de Ludmila está ocupado. O nome do noivo, como ela o apresenta, é Bruno Martins. Apesar de o relacionamento dos dois ter começado há apenas seis meses, eles já estão morando juntos e se tornaram sócios em um pub em Fortaleza. "Ele é meu grande incentivador. Era o que mais gritava na torcida do concurso", exulta a miss, que é formada em enfermagem e pretende se especializar  em estética avançada.

Bruno tem 26 anos, 1,83m, 94kg. É "fitness", diz Ludmila. Frequenta a academia  diariamente, cuida da alimentação e, apesar de ser muito vaidoso, "não dá nenhum motivo para eu ficar insegura".  Eles se conheceram pelo aplicativo Tinder. O noivo conta que foi paixão à primeira foto. "Eu me encantei antes de conhecê-la pessoalmente. Nunca tinha ficado com uma mulher plus size, estava curioso", diz ele, sem soar antropológico.

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Com o noivo, Bruno, em dois momentos: em um desfile de vestidos de noiva (o menino é filho dele); e na academia (Fotos: Arquivo Pessoal)

A melhor, entre 28

De acordo com Bruno, sempre aparece alguém para "questionar o relacionamento com Ludmila" e se referir a ela de maneira preconceituosa. Pai de um garoto de 3 anos, ele conta que sua ex-mulher, por exemplo, em uma tentativa de reatar o casamento, usou o sobrepeso de Ludmila como argumento a seu favor. "Mas ela é gorda!", alegou.

No concurso de sábado, realizado no Novotel Rio Porto Atlântico, no centro do Rio, a "gorda" derrotou 27 candidatas. Ao tornar-se a segunda cearense a levar o título, ela recebeu a coroa da conterrânea Talita Reis, vencedora em 2018, e ganhou R$ 5 mil.

Na praia de Canoa Quebrada, no Ceará: "Nos passeios de buggy, a gente para em alguns lugares para fotografar. Nessa foto, eu estou morrendo de medo de montar no jegue, por ser gordinha, e todo mundo rindo de mim. No final do aperreio, eu mesma acabei rindo de tudo" (Arquivo Pessoal)

Morte ou W.O.

O idealizador do miss plus size nacional, Eduardo Araúju, anunciou que no ano que vem o concurso será em Fortaleza. "Nossa intenção é que o evento cresça e que, a partir de 2021, possa se realizar em outros estados."

Trabalhando há dez anos com modelos plus size, Araúju diz que não conta com nenhum apoio ou patrocínio, mas afirma que, "enquanto tiver saúde", não pretende desistir do concurso: "Só se eu morrer, ou se não houver mais candidatas".

Brigadeiro e cervejinha

Filha do meio de uma família de classe média, a miss plus size tem um irmão de 32 anos e um de 18. Conta que o mais novo "era gordinho", até que se submeteu a um regime rigoroso, trocou o curso de ciências contábeis por nutrição e hoje é "rato de academia".

Aos 7 anos, posando para foto: "Sempre fui muito vaidosa. Adorava concurso de miss, assistia a todos" (Foto: Arquivo Pessoal)

A própria Ludmila treina pelo menos cinco vezes por semana, faz musculação e dança (zumba e fitdance). "Tenho facilidade para engordar e não quero deixar de comer brigadeiro nas festas nem de tomar minha cervejinha. Então, malho para manter o meu peso atual", diz ela, que veste manequim 46 e já chegou a 110kg.

Fisiculturista sádico

Isso foi depois de terminar um relacionamento abusivo com um catarinense que tinha "corpo de fisiculturista" e a agredia física e psicologicamente. "Ele não me aceitava, queria a todo custo que eu emagrecesse.  Eu cheguei a perder 20kg, mas sofrendo muito." Um dia, Ludmila descobriu que o agressor a traía e passou a ter crises de fortes de ansiedade e pânico, "a ponto de ir parar no pronto-socorro, achando que ia morrer".

Passou. "Eu escolhi me aceitar", diz ela. Depois de deixar claro que "o movimento plus size não é uma apologia ao sobrepeso", Ludmila afirma que nunca se sentiu tão feliz. "Hoje, estou com a pessoa que eu amo, trabalho com o que eu gosto e me sinto maravilhosa!"

Benzadeus.

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

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