PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Categorias

Manicure trans cria grife Surra de Unha em resposta artística à agressão

Paulo Sampaio

03/01/2020 04h00

A manicure, artista plástica e poeta carioca Ana Matheus Abbade, 23 anos, não se considera totalmente identificada com o gênero masculino nem com o feminino. Caso se identificasse com um dos dois, ela seria classificada na nomenclatura moderna como uma pessoa "binária".  Ana Matheus diz que prefere assumir uma postura "não binária"; diz que o faz como "prática necessária". Seria um compromisso político.

"É um exercício, um trato de ética", explica. "No momento que eu me assumo como não binária, eu me entendo como alguém que possui diversas narrativas que atravessam a minha forma de estar no mundo."

Veja também

Barba e bustiê

Com 1,90m de altura e 70kg, barbuda, cabelos descoloridos, Ana Matheus chega à entrevista vestindo uma calça estilo bombacha –traje típico do gaúcho binário masculino do campo–, um bustiê de lurex, tênis azul-marinho e boné com o nome de sua grife, a Surra de Unha.

Surra?

Ana Matheus explica que usou o termo em uma elaboração poética a respeito de discriminação, preconceito e violência. Ela foi vítima de uma agressão, em 2015, no Rio, e passou por outras, em São Paulo, mas não quer falar mais delas. "Os ataques físicos vêm de pessoas que a gente já espera, são sempre as mesmas. Hoje, eu me interesso pela violência no espaço íntimo. Silenciosa. Aquela que acontece no trabalho, ou com um vizinho no elevador, com as gays heterocentristas, até com a amiga hétero que, toda vez que te encontra, te espetaculariza: 'Nossa, como você tá linda!'. Eu acho que cada pessoa tem de se perguntar o quão violenta ela é."

A manicure em performance (Ana Matheus Abbade/Instagram)

Nascida em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, Ana Matheus foi criada na vizinha Itaboraí e diz que sua transição começou ao nascer: "É a minha narrativa a meu respeito. Cada um tem a sua. No meu entendimento, a transição acontece quando e como a pessoa percebe o entendimento dela com o próprio corpo e a realidade em volta.  A família, os amigos, com quem a pessoa janta, dorme, toma café da manhã, por quem ela sente amor".

Abaixo, trechos da entrevista com ela.

Universa — Você batizou sua grife de Surra de Unha. Isso tem algo a ver com o fato de você ter sofrido agressão física? Como você associa sua arte, suas unhas e sua postura política?

Ana Matheus — O fazer da arte é pautado na vivência. Quando eu trago a escrita, ou a manicure, eu tento associar sistemas sociais, que são econômicos, práticos, tecnológicos, ao fazer artístico. A unha entra como signo, como matéria, como assunto, como palavra e como uma prática que eu tenho para produzir a minha renda (financeira)Eu faço um evento que se chama manicure show. O atendimento acontece junto com uma performance de dançarinos, teatro, balé.

Universa — Suas unhas têm tamanhos e formatos diversos. Você atribui algum significado a isso?

Ana Matheus —  Não é sobre um tratado estético. É célula do meu corpo nascendo. Uma é maior que a outra, porque cada uma cresce de um jeito. As mulheres cortam para ficar tudo igual, o que não é natural.

 Universa — Sua clientela, então, é restrita?

Ana Matheus —  Sim, porque eu não ofereço um serviço expresso, de fast entrega. Desde 2015, eu estudo cosméticos que anabolizam as unhas. Eu crio fórmulas para cada atendimento, cada cliente, com uma liga específica de algumas matérias vegetais.

Unhas de tamanhos e formatos diferentes: "Não é um tratado estético. É célula do meu corpo nascendo; cada uma nasce de um jeito." (Foto:Ana Matheus Abbade/Instagram)

Universa — Você diz que se considera uma pessoa trans desde que nasceu.

Ana Matheus —  Sim. Durante os primeiros anos, eu fui desconectado dessa lembrança por um processo promovido pela educação, pela escola, pelo convívio com as outras crianças. Isso foi apagado. Então, com 17 anos, 18, eu decido rever algumas escolhas, não porque eu quisesse experimentar coisas novas, mas porque eu comecei a me conectar com o que eu era. A transição vem do autoconhecimento. No meu caso, não se trata apenas de uma montação (termo usado para designar um figurino propositalmente exagerado).

Universa — Como sua família reagiu a sua transição?

Ana Matheus — Minha família é incrível (pai, mãe e uma irmã). Ninguém é obrigado a ser legal. A realidade (da discriminação, do preconceito) é igual pra todo mundo. A diferença é como você dialoga com aquilo que não é legal. Isso pode se transformar em algo legal para eles. Hoje minha mãe me admira, me respeita. Eu moro com a minha irmã.

Universa — Nem todas as travestis possuem um discurso elaborado como o seu – estatísticas apontam que mais do que 90% delas acabam enveredando para a prostituição, porque não tiveram oportunidade de estudar, nem de conseguir emprego por causa da discriminação.

Ana Matheus — Mas aí é o lugar de conhecimento que você tem acerca das travestis. É um problema seu, não meu.

Universa — Meu não, das estatísticas. 

Ana Matheus — Você tem que entender a diversidade do que eu tô falando. Todo mundo, quando vai conversar com uma travesti, é sempre sob essa perspectiva, a de que as trans não sabem pensar. Nem todas são iguais. Assim como nem toda gay é igual. Você vai chegar em uma gay que está em frente a (sauna) Chilli Peppers, ela não vai saber ligar os pontos. Cérebro corroído de droga, esperma, falocentrismo. (Quando diz gay, Ana Matheus se refere a homossexuais binários, identificados com o gênero atribuído a eles ao nascer –masculino–, de acordo com critérios construídos socialmente).

Universa — Falocentrismo.

Ana Matheus — É o que corrói a maneira de viver das pessoas. A necessidade de elas terem o falo para poder organizar a forma de tratamento. Se essa pessoa tem falo, eu trato de um jeito; se não, de outro. 

Universa — Por que você fala "as" gays?

Ana Matheus — É um lugar afetivo para eu gostar delas. Se não uso isso, aí é que eu não gosto mesmo. Viro homofóbica.

Universa — É preciso ser não binário para chegar a esse entendimento de identidade de gênero?

Ana Matheus — Veja bem, ninguém é não binário. É uma prática. Um processo. Quase de análise.

Universa — É um exercício então, mais do que uma não-identificação com nenhum dos gêneros?

Ana Matheus — Quando você não participa desse mundo binário, em que todos os códigos estão garantidos, você é levado a pensar, a se posicionar, de forma ativa. De cada parte sua no mundo.

Universa — Para algumas pessoas, a posição do não binário parece mais confortável. Existirá sempre um plano B, em uma situação de apuro.

Ana Matheus — Essa é a forma do mundo binário perceber aquilo que ele não alcança. Porque a pessoa (no mundo binário) já assume um lugar estabelecido, confortável, em que ela não precisa se colocar. Ela é cis (identificada com o gênero atribuído no nascimento), sexista, branca, e, assim, não precisa pensar a realidade social. Vai se adaptar a uma imagem que as pessoas têm dela, muito mais do que entender, de fato, qual a função dela no mundo.

Universa — Existe a possibilidade de a escolha da pessoa coincidir com o que se espera dela. De ela, sem esforço, se encaixar no parâmetro considerado padrão.

Ana Matheus — Ainda assim é uma questão de escolha. Você não vai conseguir dormir, acordar, tomar café, se não for uma escolha sua.

Universa — Uma escolha, então, nunca é confortável?

Ana Matheus — O conforto vem do privilégio. A pessoa não escolheu exatamente, foi algo com o qual ela se beneficiou.

Universa —  Há pessoas que não vão, como você, rever as escolhas originais. Preferem, em nome da tranquilidade, evitar o autoconhecimento.

Ana Matheus — Não é à toa que o Brasil é o país onde mais se vende Rivotril (medicamento anticonvulsivante com efeito tranquilizante).

Universa — Você é uma travesti que exerce a não-binaridade. Isso restringe muito a sua prática sexual? 

Ana Matheus — Não. Se, por exemplo, uma pessoa quer transar comigo para satisfazer uma curiosidade antropológica, ou só consegue se for escondido, mas ainda assim eu estiver a fim, eu vou. De uma maneira geral, a pratica sexual é chata. Mas quando a energia combina, eu relevo qualquer ideologia.

No centro de São Paulo (Foto: Ana Matheus Abbade/Instagram)

Universa — Você prefere não falar das agressões físicas.

Ana Matheus — A minha história é igual a de tantas outras…A travesti que foi agredida na rua com um soco no olho e não se sabe por que, nem quem foi.  A agressão é diária. Física, moral. Hoje, eu fui ao Sesc, o boy (segurança) me mandou colocar uma blusa (por cima do bustiê). Eu perguntei: "Você vai comprar uma?" E ele: "Se você acha que pode entrar assim, entra". Eu disse: "Então, você já não tinha que ter perguntado." Eu me impus uma tarefa ultimamente: a reversão do que é a violência pra mim. Hoje, eu me interesso pela violência no espaço íntimo. Silenciosa. 

Universa — Por exemplo?

Ana Matheus — Ao selecionar um candidato para o cargo em uma empresa, o sistema binário precisa separar o corpo em que ele confia, do que ele não confia. Isso é que eu chamo de lugar de privilégio. Um corpo como o meu, quando passa, ele pode ser constrangido, ou espetacularizado, vulgarizado, visto com desconfiança.

Universa — Você conta com a possibilidade de causar impressões positivas?

Ana Matheus — Queria contar.

 Universa — Aparentemente, a sua narrativa só existe a partir da classificação binária de gênero.  Isso não a atrapalha no entendimento da sua própria identidade?

Ana Matheus — Se eu me desvencilho do pacto que as pessoas têm para se comunicar em silêncio, eu sou obrigada a organizar novas narrativas, diversas vezes.

Universa — Até que ponto você faz isso em função dos outros? 

Ana Matheus — Uma coisa é você pensar em função de alguém, outra é ter essa pessoa como centro de um pensamento universal. Eu tenho necessidade de pensar a respeito daquilo que a sociedade apagou o tempo inteiro na narrativa dessa cidade, por exemplo. Uma travesti tem que pensar o que eu penso. Cada pessoa trans tem de viver para ela mesma, sem esperar que os outros estudem, se informem ou colaborem para criar a noção de respeito ao próximo. Uma entrevista como essa é uma concessão de uma narrativa. De uma travesti, de uma trans, de uma pessoa não binária. Em muitas ocasiões isso não foi escrito, não foi publicado. Essa história não foi escutada. Não só por você, mas pelas minhas próprias irmãs (travestis). Ela tem de ser contada a partir de nós.

Universa — Seria um transcentrismo?

Ana Matheus — Não, um traviarcado.

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Paulo Sampaio